Não sei dizer qual dos nove anos em que meu esposo esteve doente foi o pior, mas posso dizer que desde os primeiros sintomas nossas vidas mudaram radicalmente.
Foi uma trajetória marcada pela tristeza, dor, perda, dúvida, incompreensão, aprendizado, erros e acertos.
Ele ia assumindo uma nova identidade, e eu aos poucos ia mudando também.
Quem nos conheceu desde jovens, sabe que éramos "unha e carne", um só corpo e um só coração! Como foi bom amar aquele primeiro Horacio, ele capturou meu coração quando eu ainda tinha 15 anos, namoramos por 4 anos, casamos e tivemos dois lindos filhos ( mais tarde vieram quatro netos) vivemos uma vida de lutas, algumas privações, muitas conquistas.
Durante 39 anos vivemos as quatro estações da vida, primaveras floridas e cheias de vida, que sempre traziam renovo e esperança, verões ensolarados e alegres, outonos que traziam mudanças, e alguns invernos frios e cinzentos.
Ele era um homem que amava e dava preferência à família, esposo amoroso, dedicado e ajudador, pai presente na vida dos filhos que lutou para criá-los dentro dos princípios de Deus e formar neles um caráter digno e correto.
Era firme, rígido, gostava das coisas certas, tinha qualidades e defeitos, mas suas qualidades sempre pesaram mais na balança da vida.
Meu prazer era esperá-lo na volta do trabalho, falávamos sobre o dia, sobre os filhos, falávamos tanto...
O último inverno de nossas vidas foi o mais longo de todos, os dias foram ficando cada vez mais frios e cinzentos, eu conheci o segundo Horácio, ele foi chegando, e aos poucos foi roubando o grande amor da minha vida, meu companheiro dedicado já não era o mesmo, não reconhecia em suas ações o homem sério e correto, não era o mesmo pai, avô, tio, cunhado...
Minha luta para aceitar o diagnóstico foi dramática, anos e anos de busca, pesquisas, médicos, pois vê-lo tão preservado fisicamente, independente...algo parecia não estar certo. Ao mesmo tempo eu sabia que já não vivia com o homem com quem me casei.
Eu senti raiva, indignação e perdi o brilho da vida, eu senti compaixão, cuidei e amei de um modo diferente este segundo Horácio. ( se vc leu esse blog desde a primeira postagem, sabe do que estou falando)
Ultimamente ele estava limitado pelas circunstâncias, não podia mais cuidar do próprio dinheiro, não podia dirigir, nem sair sozinho, tinha um cuidador para supervisiona-lo. Ele não aceitava essa situação, dizia que estava bem e não precisava disso tudo, por outro lado, tinha momentos de ansiedade e agressividade, impulsos que o levaram a situações onde colocou em risco, a vida de outros e a sua própria.
Agora ele se foi para sempre, a DFT e seus impulsos foram mais fortes que sua vontade de viver, e
ele desistiu de lutar.
Nossa família, está dilacerada pela dor, mas estamos certos de que ele está livre de suas prisões, ele voltou para a casa do Pai, lá não há demência, ansiedade, tristeza e depressão, para ele terminou todo conflito e dor.
Cremos no Deus que consola, que faz novas todas as coisas e que tem poder para nos restaurar. Ele trará a primavera outra vez ( gostaria que isso fosse imediato)
Decidimos que lembraremos do primeiro Horacio e de tudo o que ele significou em nossas vidas!
A meus filhos, nora, genro e netinhos minha gratidão eterna pelo suporte, carinho, ajuda em todas as áreas, presença constante e por terem sido meu porto seguro nos últimos nove anos.
Minhas irmãs, sobrinhas (vocês foram até o fim), meu irmão que sem condições viajou 5 horas em cima de um moto para nos abraçar, amigos mais chegados que um irmão que no último dia do ano estavam lá para tentar com seu abraço, nos aquecer na "noite" mais sombria e fria desse nosso último inverno, a você amiga querida que me socorreu e viveu comigo a aflição dos últimos minutos.
Meu Pastor querido que tantas vezes nos acolheu, aconselhou, cuidou, aceitou, e fez o melhor sermão de todos os tempos no culto de gratidão pela vida dele, sem palavras para agradecer seu apoio.
Amigos a Demencia Frontotemporal (DFT) é ainda pouco conhecida, e de difícil diagnóstico, que afeta o comportamento principalmente. Ainda não há tratamento específico, precisamos divulgar, aprender, buscar ajuda, para que logo encontrem um medicamento que possa interromper o processo degenerativo.
Hora, eu e as "crianças" te encontraremos no Céu!
���� ainda é muito duro aceitar isso.. Difícil de acreditar.. Um pesadelo de 14 dias..
ResponderExcluirÉ Su muito difícil essa trajetória, só quem acompanhou sabe o quanto doeu, mas nós como família estamos e sempre estaremos juntos em todos os momentos. ..
ResponderExcluirLindo texto, lindo depoimento. É possível ver em cada linha o quanto foi difícil atravessar esse deserto. Mas, como você mesma afirmou, a primavera virá e trará novas flores e novos motivos para viver.
ResponderExcluirConheço a dor de perder um pai, o meu pai, que vc tanto conheceu. Sei o vazio que fica, o quanto é difícil prosseguir e até lidar com a culpa de um sorriso, que no meio de tanta dor deixamos escapar.
Receba meu carinho e conte com minhas orações.
Beijo carinhoso.
Olá Su, poderíamos conversar sobre a doença? Meu pai foi diagnosticado com APP. Meu e-mail é brunocalilpera@gmail.com. Aguardo respostas, abraço.
ResponderExcluirPoxa minha esposa tem 51 anos, quadro indicativo de DFT, e hoje foi um dia muito duro ela não conseguiu chegar no Dentista que frequenta há 8 anos e me perguntou o que está havendo com ela.
ResponderExcluirPoxa minha esposa tem 51 anos, quadro indicativo de DFT, e hoje foi um dia muito duro ela não conseguiu chegar no Dentista que frequenta há 8 anos e me perguntou o que está havendo com ela.
ResponderExcluirminha querida li seu text e realemnte muito triste e bomnito. Cuido de minha tia ha uns 7 anos ela tem DFT. Ela sempre foi uma pessoa muito extremamente dificil brigava com todo mnundoe m todo os momentos nos encontros e reuniões familiares era ela que sempre acabava cpom a festa. Ela não casou nem teve filhos Agora imagine uma pessoa assim manifestando uma doença dessas...Hoje ela esta bem velhinha naõ consegue manifestar quanta nada de coerência verbal ten com frequência infecções urinarias,candidíase além de pedra nos rins e vesícula. Na maioria das vezes em qualquer crise é difícil de identificar do que ela esta sofrendo. Porém hj o que esta me preocupando e a rigidez física dela das pernas e braços principalmente.E uma luta pra mim tentar descruzar as pernas dela pra evitar calor nas partes intima dela ou banha-la. Voce tem alguma dica de site ou grupos que fale mais concretamente sobre a DFT?
ResponderExcluirPreciso de ajuda , uma pessoa para conversar meu marido foi diagnosticado com essa doença, está muito difícil a convivência , estou me sentindo muito sozinha.
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