Quem sou eu

Ainda procuro uma palavra que defina de verdade quem sou. Mas posso dizer que sou esposa, mãe, tia, avó, amiga, etc. etc.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

As quatro estações da vida!

Não sei dizer qual dos nove anos em que meu esposo esteve doente foi o pior, mas posso dizer que desde os primeiros sintomas nossas vidas mudaram radicalmente.
Foi uma trajetória marcada pela tristeza, dor, perda, dúvida, incompreensão, aprendizado, erros e acertos.
Ele ia assumindo uma nova identidade, e eu aos poucos ia mudando também.
Quem nos conheceu desde jovens, sabe que éramos "unha e carne", um só corpo e um só coração! Como foi bom amar aquele primeiro Horacio, ele capturou meu coração quando eu ainda tinha 15 anos, namoramos por 4 anos, casamos e tivemos dois lindos filhos ( mais tarde vieram quatro netos) vivemos uma vida de lutas, algumas privações, muitas conquistas.
Durante 39 anos vivemos as quatro estações da vida, primaveras floridas e cheias de vida, que sempre traziam renovo e esperança, verões ensolarados e alegres, outonos que traziam mudanças, e alguns invernos frios e cinzentos.
Ele era um homem que amava e dava preferência à família, esposo amoroso, dedicado e ajudador, pai presente na vida dos filhos que lutou para criá-los dentro dos princípios de Deus e formar neles um caráter digno e correto.
Era firme, rígido, gostava das coisas certas, tinha qualidades e defeitos, mas suas qualidades sempre pesaram mais na balança da vida.
Meu prazer era esperá-lo na volta do trabalho, falávamos sobre o dia, sobre os filhos, falávamos tanto...
O último inverno de nossas vidas foi o mais longo de todos, os dias foram ficando cada vez mais frios e cinzentos, eu conheci o segundo Horácio, ele foi chegando, e aos poucos foi roubando o grande amor da minha vida, meu companheiro dedicado já não era o mesmo, não reconhecia em suas ações o homem sério e correto, não era o mesmo pai, avô, tio, cunhado...
Minha luta para aceitar o diagnóstico foi dramática, anos e anos de busca, pesquisas, médicos, pois vê-lo tão preservado fisicamente, independente...algo parecia não estar certo. Ao mesmo tempo eu sabia que já não vivia com o homem com quem me casei.
Eu senti raiva, indignação e perdi o brilho da vida, eu senti compaixão, cuidei e amei de um modo diferente este segundo Horácio. ( se vc leu esse blog desde a primeira postagem, sabe do que estou falando)
Ultimamente ele estava limitado pelas circunstâncias, não podia mais cuidar do próprio dinheiro, não podia dirigir, nem sair sozinho, tinha um cuidador para supervisiona-lo. Ele não aceitava essa situação, dizia que estava bem e não precisava disso tudo, por outro lado, tinha momentos de ansiedade e agressividade, impulsos que o levaram a situações onde colocou em risco, a vida de outros e a sua própria.
Agora ele se foi para sempre, a DFT e seus impulsos foram mais fortes que sua vontade de viver, e
ele desistiu de lutar.
Nossa família, está dilacerada pela dor, mas estamos certos de que ele está livre de suas prisões, ele voltou para a casa do Pai, lá não há demência, ansiedade, tristeza e depressão, para ele terminou todo conflito e dor.
Cremos no Deus que consola, que faz novas todas as coisas e que tem poder para nos restaurar. Ele trará a primavera outra vez ( gostaria que isso fosse imediato)
Decidimos que lembraremos do primeiro Horacio e de tudo o que ele significou em nossas vidas!
A meus filhos, nora, genro e netinhos minha gratidão eterna pelo suporte, carinho, ajuda em todas as áreas, presença constante e por terem sido meu porto seguro nos últimos nove anos.
Minhas irmãs, sobrinhas (vocês foram até o fim), meu irmão que sem condições viajou 5 horas em cima de um moto para nos abraçar, amigos mais chegados que um irmão que no último dia do ano estavam lá para tentar com seu abraço, nos aquecer na "noite" mais sombria e fria desse nosso último inverno, a você amiga querida que me socorreu e viveu comigo a aflição dos últimos minutos.
Meu Pastor querido que tantas vezes nos acolheu, aconselhou, cuidou, aceitou, e fez o melhor sermão de todos os tempos no culto de gratidão pela vida dele, sem palavras para agradecer seu apoio.

Amigos a Demencia Frontotemporal (DFT) é ainda pouco conhecida, e de difícil diagnóstico, que afeta o comportamento principalmente. Ainda não há tratamento específico, precisamos divulgar, aprender, buscar ajuda, para que logo encontrem um medicamento que possa interromper o processo degenerativo.

Hora, eu e as "crianças" te encontraremos no Céu!