A vida muda a cada dia, e na maioria das vezes nunca mais será a mesma. Nascemos totalmente dependentes, mas ai nesse momento se da inicio ao processo da independência que vai levar toda uma vida e consumir muitas energias. As mais diversas situações e experiências farão parte do que chamaremos a história de nossa vida. Nem sempre teremos capítulos interessantes para escrever, nem grandes aventuras a relatar, nem tampouco inúmeros happy ends, contudo na somatória de tudo, lá no final, queremos poder fazer a leitura de nossa vida com sentido e significado.
Para muitos de nós viver é um desafio imenso, por isso muitos desistem no meio do caminho, preferindo não arriscar, poupando-se de dores e frustrações inerentes ao estar vivo. Aquilo que não conhecemos, causa medo e insegurança e será preciso muita força e determinação para enfrentar o desconhecido, nessa jornada de surpresas que se inicia a cada novo minuto de vida. Cada fase da vida imprimirá marcas que irão se incorporar ao nosso jeito de ser, mas a maneira como reagimos a cada uma delas irá determinar nosso grau de maturidade para enfrentar o que ainda esta por vir. Nessa jornada é impossível pular etapas, a lógica do crescer estará sempre presente exigindo o rigoroso cumprimento de cada uma delas. Quanto mais cedo percebermos essa verdade, mais rápido estaremos prontos para seguir adiante.
Somos únicos, porém enfrentamos situações diferentes que nos levarão ao mesmo objetivo, o amadurecimento para enfrentar o amanhã de maneira mais tranquila e centrada do que fizemos hoje. Crescer para mim foi tranquilo e ao mesmo tempo assustador. Tenho deliciosas lembranças da infância gravadas em minha mente. Outras terríveis, tristes e perturbadoras. Embora tivesse motivos de sobra para que as más lembranças superassem as boas, chego à conclusão que o balanço é positivo. Ao mesmo tempo em que isso me anima, me faz questionar se fui passiva demais ou condescendente demais. Ou será que compreendi cedo que a vida é assim, uma coleção de situações, que deve ser enfrentada com aquilo que somos? Não obstante saiba quem sou, (do tipo que da explicação sobre meus atos, na tentativa de que compreendam minhas atitudes), tenho buscado o equilíbrio, aceitar quem sou e o que sou, para continuar minha vida e dar conta de cada novo desafio, com coragem e determinação, sem temer o que os outros possam pensar.
Hoje sou uma cuidadora, e sinto que cada etapa de minha vida contribuiu um pouco para me preparar (se é que existe essa possibilidade), para essa nova etapa do meu crescimento como pessoa. O mais assustador é não saber o que fazer. Lidamos com novas situações a cada dia e muitas vezes esperamos que as pessoas que nos acompanham, entendam nossos questionamentos, dúvidas, frustrações. Vivemos de perto as variações de humor, o distanciamento, os equívocos, a aparente teimosia, que de início passa despercebido para muitos, mesmo que sejam íntimos, quer sejam familiares ou amigos. Quanto mais depressa entendermos que por melhor intencionadas estejam os que no cercam, não terão como analisar sob nossa ótica, melhor será e menos desgastante. O cuidador está “on” 24 horas por dia, a tendência é não desligar nunca, estamos sempre em “stand by”! Isso exige muito, tanto do emocional quanto do físico, (dependendo do estágio), nossa vida muda radicalmente, nossa perspectiva, nossos planos. O cuidador precisa abrir mão de muita coisa em favor daquele que é cuidado...Toda noite quando me deito, sinto “saudades” de meu marido, de seu carinho, da maneira como segurava minha mão assistindo televisão, de sua companhia e parceria. Digo a Deus que não era isso que eu sonhei para nossa vida, lembro ao Senhor, (como se Ele pudesse esquecer), que tínhamos “combinado” ficar juntinhos, como o companheiros que sempre fomos. Lembro-me de quando ainda tínhamos nossos filhos pequenos, gostávamos de cantar uma canção do Roberto Carlos que dizia:” Amanhã estaremos velhinhos, falaremos juntinhos dos segredos do amor para os nossos netinhos”! Já temos nossos netinhos, mas os segredos do amor para meu esposo já não são tão importantes assim! Um dia perguntei à uma amiga: “Como pode alguém sentir saudades de quem está perto?” O cuidador de uma pessoa demenciada, seja de qual tipo for, sente isso diariamente! È conviver com a perda diária é não esperar muito, é ver o silêncio e a solidão se instalando lentamente. O cuidador precisa de cuidado, mas disso falo em outro momento!!!