Há algumas semanas sinto o desejo de falar um pouco sobre algumas pessoas que estão por aí, pessoas que eu jamais teria conhecido se meu esposo não fosse portador de quadro demencial. Isso acontece é normal, nos identificamos com pessoas que estão vivenciando as mesmas situações. A primeira se chama Juddy Robbe, ela foi coordenadora do primeiro grupo de apoio a familiares de portadores de DA que fiz parte pela internet em 2008. Lembro até hoje de suas palavras de boas vindas e da maneira carinhosa como disse: “sinta-se a vontade para compartilhar um pouco de sua história quando quiser”. Neste grupo conheci pessoas incríveis, filhas cuidando de pais e mães, um filho carinhoso cuidando de sua mãezinha, e uma mulher de fibra que vou chamar de H que me fez ficar buscando postagens antigas para acompanhar sua trajetória com seu esposo J que faleceu em 2008 por volta dos 57 anos. Suas colocações eram incríveis, ainda me lembro de algumas, J sabia de sua patologia e foi com ela a algumas reuniões de cuidadores que eram realizadas em BH, terei o prazer de estar com H em breve e conhecer essa mulher que contribuiu tanto com sua experiência de vida, para todos do grupo e quem sabe ela concorde em detalhar um pouco mais essa história...
E quero falar só um pouquinho da S que com a ajuda da filha T, cuida da mãezinha com Alzheimer. S precisa trabalhar, não tem recursos para colocar a mãezinha em uma boa instituição, (não perguntei se gostaria de fazê-lo), e não tem recursos para contratar uma cuidadora, montou um esquema de cuidado, monitoramento a distância, no cantinho de sua telinha S vê sua mãezinha o tempo todo e uma senhora recebe uma pequena gratificação para ir vê-la no meio da manhã, T aproveita cada minuto de sua hora de almoço para realizar a infusão da dieta da vovó e trocar sua fralda. Na parte da tarde mais algumas visitas da senhora e S chega a casa para mais uma jornada noturna. Sua cama fica ao lado da mãezinha e eu fiquei emocionada em ver o cuidado dela com detalhes que talvez para alguns não faria sentido, já que sua mãe está no último estágio da DA, um deles é tingir seus cabelos como ela sempre gostou...
Em minha busca incessante de conhecimento encontrei um artigo, publicado pelo LEVIS da UFSC, com o título:
Cuidadores Familiares de Idosos Dementados:
Uma reflexão sobre a dinâmica do cuidado e da conflitualidade intrafamiliar.
O artigo é extenso, mas extrai apenas o trecho final com os devidos créditos, e quero fazer meus destaques sobre dois pontos.
1. Distúrbios de cognição e memória dificultam a interação cuidador e portador.
2. A família não consegue ter uma real compreensão sobre o que é a doença e como ela afeta o doente.
Essa compreensão é ainda mais prejudicada nos familiares que não convivem diariamente, eles poderão não entender nossas solicitações, motivos e explicações, exatamente por não saberem que suas atitudes podem influenciar e causar impacto negativo sobre alguma situação, não porque querem prejudicar, mas por não entenderem a complexidade de um quadro demencial e isso é a causa de muito desgaste, ainda não aprendi lidar muito bem com essa situação, existem situações que o cuidador terá que dizer NÃO, seja a um amigo chegado, a um irmão, cunhado, primo etc.
3. Existe a necessidade de reconstrução da imagem que possuem do portador, uma vez que associado a perda de papeis ocorre simultaneamente uma inversão dos mesmos. O cuidador busca insistentemente por uma pessoa que não está mais ali.
Ainda me pego fazendo isso, buscando “meu” Horacio dentro desse Horacio, e não sei se isso um dia acabará.
4. Há falta de paciência com a repetição de erros cometida pelo portador e a dificuldade do cuidador em trabalhar com os sentimentos de raiva e culpa.
5. A família busca o isolamento social por sentir vergonha pelos comportamentos inadequados do portador e por não saber como lidar com essas situações.
6. O cuidador sente grande frustração por perceber que há necessidade de alterar seus projetos de vida pela falta de perspectivas futuras para ele e o portador, ainda assim, busca insistentemente mantê-lo ativo no desempenho de suas atividades e competências.
7. Ocorre disputa pelo poder e competição entre os cuidadores.
8. Existe a necessidade de resolverem-se questões financeiras.
9. Tensões na relação dialética da mútua definição do cuidador com os não-cuidadores.
10. Dificuldades do cuidador na tomada de decisão pela institucionalização do portador
Silvia Maria Azevedo dos Santos
Theophilos Rifiotis
Olá Su, meu nome é Susana, tenho 28 anos. Li todo o seu blog e quero te parabenizar! Pela mulher que tem se apresentado, pela força e agradecer por compartilhar sua experiência.
ResponderExcluirEstamos passando pela mesma dificuldade com minha mãe que tem 54 anos. Me identifiquei muito com você em alguns pontos, algumas histórias, questionamentos, dúvidas, dificuldades, enfim, mas o mais importante, encontrar em Deus a razão de viver. Entender dos propósitos que Ele tem em nossas vidas e que todas as coisas coperam para o bem daqueles que amam a Deus.
Com fé vamos lutando e caminhando. Detectamos algumas mudanças de comportamrento da minha mãe em 2007. demorou 3 anos para ser diagnosticada. Hoje ela mora com meu irmão em um sítio no interior de Goiás, e eu moro em Campinas-sp. Situação difícil, pois sempre morei com minha mãe, meus pais são separados. Mas tudo propósito de Deus. As coisas vão caminhando e Deus vai nos dando entendimento.... e alguns momentos vimos que as peças vão se encaixando.... e entendemos de fato que Deus está no controle. Mas lógico que as vezes nos questionamos "tudo isso só aconteceria através da doença da minha mãe???"... muito difícil... mas ao mesmo tempo conseguimos enchergar coisas boas diante de tantas dificuldades.
Oro pra que Deus continue abençoando sua familia! dando forças, sabedoria de como lidar com isso, e amor....
Agradeço a Deus todos os dias por existir esse amor entre nós... a nossa disposição em cuidar da nosssa mãe, e o amor que sentimos por ela!!! Isso não tem preço e faremos o que tiver ao nosso alcance.
Gostaria de saber que grupo de apoio virtual é esse que vc utiliza??? esse grupo que te fez conhecer tantas pessoas...
muito importante trocar experiências... fugi disso por muito tempo, até como parte da negação da doença, mas hoje quero compartilhar, aprender... e entender acima de tudo que cada um tem sua história.
Grata pelas palavras e troca de esperiência..
que Deus os abençoe.
Olá Susana, obrigada pelas palavras de carinho. As situações são sempre muito peculiares e ao mesmo tempo singulares como somos todos nós! Fico feliz por cuidarem de sua mãe com carinho, até porque é um mandamento honrar pai e mãe. Imagino também a dificuldade, pois vejo os dois lados em minha família, o meu de esposa e de meus filhos, sentimentos diferentes, mas igualmente dolorosos.O grupo a que me referi no início do post já não existe. A Juddy agora é coordenadora do site harmoniadeviver.com.br, que é para dar apoio a familiares e cuidadores de portadores de DA e outras demências. Há um grupo em formação específico para cuidadores de portadores de DFT, mas ainda não estou segura em divulgá-lo. Se desejar envie em email para sumonteiro@uol.com.br e passarei algumas outras informações. Deus abençoe sua mãezinha e a toda sua família.
ResponderExcluirGrata Su pela dica, continuamos em contato... bjos
ResponderExcluirOlá Su!
ResponderExcluirEm primeiro lugar, obrigada por compartilhar sua experiência e levar um pouco de luz a esse assunto tão difícil, onde a solidão do início é um poço muito escuro.
Tenho um suspeita que se confirma dia a dia, que meu marido está desenvolvendo a DFT.
Caso você possa me ajudar, estou enviando um e-mail para aquele endereço que você informou.
Muito obrigada.